terça-feira, 23 de maio de 2017

nº 209 Com muita fé (de erratas).


O padre José Cambeiro Rodríguez começou os seus estudos sacerdotais em 1925. Esse ano foi o beneficiário da beca Araújo Silva através da qual um neno de Rianxo podia estudar gratuitamente no seminário compostelano. Com certeza, os vicinhos de Leiro e os nossos historiadores poderam reconstruir a história deste sacerdote grande impulsor de atividades na paróquia e, pelos vistos, muito querido. E digo eu que seria querido pois o túmulo que o abriga no campo santo de Leiro é mesmo impressionante. 
Trata-se dum grande montículo de rebos no centro da praça, sobre o qual descansa a figura dum santo de pedra e uma cruz. A dia de hoje prefiro não fazer nenhuma descrição destes objetos que adornam o túmulo à espera de que alguém que conheça a sua história desvele de onde saíram.
O caso é que a obra teve de custar o seu dinheiro, e até ficou aparente. Mas, como pode ser que ninguém fizera a revisão ortográfica? Com o fácil que teria sido chamar-lhe cura!

                                        

segunda-feira, 22 de maio de 2017

nº 208 Graffiteiros do passado V

V

Fazia tempo que não saia de caminhada polos montes de Rianxo, tanto que achava mais que provável que os grafiteiros se esqueceram de mim. Mas não, sempre há algum regalinho para uns olhos observadores. Desta volta encontrei dois espécímes que ponho ante vós por se fossem de interesse.
O primeiro é uma U, tal vez uma ferradura ou uma inicial. Sendo o seu um contexto de canteiro, tal vez se trate duma marca de pedreiro. De ser uma ferradura não conheço outra similar nas rochas rianxeiras.



A outra resulta-me mais inquietante. Haverá que ir de noite para vê-la com luz artificial, mas acho que na fotografia se intui bem a figura rebaixada na pedra. Desconheço que pode simbolizar e não sei de exemplos similares. Como sempre, qualquer sugestão é bem recebida.




Quando possa ir demoradamente a observar esta rocha, tenho a certeza de que descobrirei novos desenhos e mesmo a perceção que tenho deste pode sofrer modificações, mas, por enquanto, ai ficam as imagens, para que não me esqueça de voltar.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

nº 207 O duro avecrêmico.


Poderia construir o relato da minha vida utilizando como fio condutor as sucessivas obsessões bibliófilas que fui padecendo ao longo dos anos. Em realidade, o meu interesse não é tanto pelos volumes quanto pelos textos e dados que eles contêm. E dizer, careço de qualquer indício de fetichismo livrófago, um vício que contribuiu em grande medida à formação do universo criativo de autores tais como Borges, que como é sabido foi um autêntico pirado da bibliofilia. Ele, por exemplo, adorava um exemplar da primeira tradução ao inglês, 1840, de As mil e uma noite de E. W. Lane, citado em vários dos seus contos. A mim valeria-me uma edição cubana –dessas que parecem feitas em papel comestível– com tal de que a tradução fosse especialmente brilhante ou as notas a rodapé estivessem iluminadas por uma erudição irrebatível.

A minha atual obsessão chama-se Daniel Sueiro (1931-1981). Estou comprando os seus livros por todo o Estado Espanhol a preços mesmo inferiores aos dos gastos de envio. Tudo começou com a leitura dum conto: El regreso de Frank Loureiro e aí continuo, lendo e gozando dum sincero cronista da derrota.
Suponho que em breve publicarei algo mais elaborado, mas, por enquanto, limito-me a comentar uma anedota curiosa. La Criba foi publicado em 1961 por Seix Barral e conta a história de «un pobre diablo al que atenazan las circunstancias». Quase no final do livro, o protagonista encontra-se acurralado pelos gastos sanitários que durante o embaraço e posterior nascimento do seu primeiro filho foi acumulando. No médio do seu desespero compra um jornal no que lê a seguinte notícia:

«Sacó unas monedas del bolsillo y compró un periódico. Lo fue leyendo, andando, por la acera, ojeándolo, leyendo los titulares. […]
Un anuncio que venía en el periódico, perdido en el fondo de una página, le llamó la atención. Lo había visto ya, pero sólo ahora se detuvo y lo leyó detenidamente. “El duro avecrémico vale ahora 80.000 pesetas”, comenzaba. “Es de la serie “F”, de mucha circulación”.» p.155

O duro avecrêmico tinha o valor trocável de muitos duros, 80.000 pesetas da Espanha autárquica na que um quilograma de pão custava 7,50 pts e umas 4 pts um litro de leite. Mas como o bilhete com o número de série exato não era fácil de encontrar, o prémio aumentava e em janeiro do 57 já andava por cento vinte mil rúbias.
Gallina Blanca, a empresa promotora do concurso, nascera em Catalunha em plena Guerra Civil. O seu invento consistente em cubos de caldo concentrado a base de carne argentina e extrato variado de legumes e hortaliças converte-se num produto básico na população faminta da pós-guerra. É paradoxal, e suponho que casual, que o condutor do programa da emissora da S.E.R. onde se desenvolvia o concurso «Duro com el duro», Juan Carlos Thorry (28 de junho de 1908, Coronel Pringles,  Argentina - 12 de fevereiro de 2000, San Antonio de Padua, Merlo, Argentina) tivesse a mesma origem que a carne dos cubos concentrados.

Desconheço –e olhem que procurei por toda a rede!– se alguma vez alguém se levou o prémio, mas o duro avecrêmico é, sem dúvida, uma magnífica ilustração para a literatura de Sueiro, cujo fundamento não é outro que a descrição minuciosa dos sonhos irrealizados.


Daniel Sueiro

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

nº 206 O translado dos restos de Castelao e a política local.


Acaba de chegar às minhas mãos um exemplar do Barbeiro Municipal, porta-voz do BNG de Rianxo datado em julho do 1984. Acho que se trata dum documento muito interessante pelas razões a seguir:

1º Em 1981 são as primeiras eleições ao parlamento autónomo da Galiza. O BNPG-PSG –o BNG não tem a sua assembleia constituinte até setembro do 1982– obtém três deputados que são expulsos do parlamento por não jurar a constituição. Em Rianxo, nas municipais de 1983, o BNG consegue três vereadores que junto aos 15 do PSOE são as únicas forças pressentes no consistório.

2º Os restos mortais de Castelao chegam a Galiza o 28 de junho de 1984. Em Rianxo há um sentimento quase unánime de rechaço, que se vai traduzir em diversos atos e manifestações populares e institucionais. Mas não existe uma motivação única a este rejeitamento. Por uma parte estão os que consideram que Castelao deve de ser enterrado na sua terra natal e por outro, os que opinam que não se dão as condições políticas necessárias para a sua repatriação, pois o anseio soberanista do mestre não foi satisfeito com o estatuto de autonomia.

3º Não menos importante para mim é o texto em si mesmo. O galego que emprega o redator/a do documento parece-me esplêndido para o que, na altura, era comum aos textos políticos. Está cuidada a redacção, que resulta limpa e concisa, e também, e isso aumenta o meu interesse, a ortografia. 








sábado, 1 de outubro de 2016

nº 205 Os cumiais esvaciados.


A sexta teve o prazer de dar um passeio por Isorna na companhia de Tito, o concelheiro de património de Rianxo. O nosso pequeno percurso deu para muito, partilhamos ideias e repassamos algum dos tesoiros patrimoniais com que conta esta paróquia rianxeira. Em Quintães vimos uma graneira que tem uma caraterística que faz muito tempo me tem intrigado. Eu não sou muito de escrever coisas sobre as que não posso dar dados certos, nem de lançar hipóteses que não tenham um suporte documental, por isso levo guardando estas imagens e as minhas dúvidas tempo e tempo.
Bom, o caso é que em Rianxo há um grupo de graneiras que têm uns adornos cumiais característicos, duma ousadia técnica inusitada.
Quiçá uma das graneiras mais emblemáticas de Rianxo é a conhecido como Horreo de Rodríguez. Foi construído em 1919, causando uma famosa polémica entre Mariano Rodríguez, pai de Castelao, e o então presidente da câmara municipal, Manuel Pérez. Se não me engano esse espigueiro é o que está em Fincheira, justo antes do estreitamento pelo que se sai da vila em direção a Leiro e Isorna.
Como cumiais do pinche do leste aparecem três torres, a principal esvaziada.

Figura 1

A poucos metros, na finca da Martela, uma segunda graneira tem um novo cumial furado, desta volta muito mais estilizadas, com paredes compostas por colunas e vãos.

Figura 2

Na saída de Rianxo em direção a Assados, lugar do Paço,encontramos outra com certo parecido ao anterior.

Figura 3

Por último a graneira de Quintães que parece um caminho intermédio entre a fig. 1 e a 2. 

Figura 4

E até aqui. Estes são os únicos exemplos que pude encontrar no nosso concelho. Existem mais? Tal vez. Há este tipo de cumiais em outros concelhos vizinhos? Haverá que perguntar e continuar investigando. Contudo, a mim se me apresentou uma série de questões puramente técnicas que gostaria de partilhar. 

1º Estes cumiais em forma de torres ameadas e, quiçá, torres de igreja, substituem as cruzes. Onde há estes elementos, não há cruzes. Tem isto alguma explicação? Em Brião há mesmo um cumial com forma de gato. A cruz é um símbolo profilático, combate à maldade em qualquera das suas manifestações. O gato de Brião é fácil relaciona-lo com a função de torna-ratos que tem o palafito galego. Mas esta torres? Que representam? E porque três?

2º  Uns meses atrás, perguntei-lhe a Che Golias, grande mestre canteiro, como se faziam este tipo de esvaziados. Ele comentou-me que o seu autor tinha de ser um canteiro dos melhores e que provavelmente usara algum material como escaiola para proteger as paredes já feitas. Em qualquer caso é um labor delicadíssimo, que não qualquer canteiro podia fazer.

3º Dado que estes quatro exemplos pertencem a Rianxo, estaríamos ante a obra dum único canteiro ou da sua oficina? A graneira de Rodríguez foi feita no 1919 e o de Quintães em 1935–data gravada no pinche– assim que, a falta de saber algo dos outros dois, estamos ante um intervalo de tempo relativamente breve.

4º Para poder albergar as três figuras, a cornija do pinche tem de ter muito voo. Isto todavia consegue que os cumiais apareçam como penduradas no ar.

Por último, só dizer que se alguém conhece algum outro exemplo deste tipo de cumiais agradeceria o partilhasse com nós. O saber é um bem cooperativo.

ADENDA 24/10/2016

Uns dias atrás, indo para Abuim, decidi passar por Brião, duas aldeias da paróquia rianxeira de Leiro. Em Brião encontrei-me com dois exemplares mais de graneiras com cumiais esvaziados.
O primeiro, fig. 5, parece um exemplar intermédio entre a fig. 2 e 3 e a fig. 4, mais próximo estilísticamente a este último.

 
fig. 5

O segundo, fig. 6, é um novo passo nesta história . O cumial converte-se numa autêntico campanário. A graneira está em propriedade privada e a fotografia não é boa, mas nesta ocasião parece que o cumial pode estar feito de cimento. Como se vê os pináculos dos lados não correspondem

fig. 6

Continuaremos.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

n° 204 A moinheira do Armário Musical.


A palavra castelhana musiquero refere-se a um móvel destinado a guardar partituras ou livros de música. Rafael Dieste tinha um ao lado do seu piano, quiçá com os métodos e partituras que um dia tocara a sua irmã Olegária. Um termo tão formoso e a vez claro e conciso como musiquero não tem, que eu saiba, equivalente em galego. No entanto podemos empregar, segundo convenha, móvel, armário ou prateleira para partituras. Também não conheço um nome específico nem em castelhano nem em galego para o armário destinado a guardar instrumentos musicais. Em qualquer caso existem exemplares criados exclusivamente com este fim, como acontece com um localizado na sala de professores do I.E.S. Fernando Blanco de Cee.

Ontem, 18 de agosto, a professora Isabel Rei Samartin e mais eu visitamos esta vila marinheira com a intenção de ver o conjunto de instrumentos que custódia a dita fundação, os quais constituem um grupo único nas coleções públicas galegas. Dos instrumentos e da sua importância desde um ponto de vista histórico e contextual dará, no seu dia, cumprida notícia a professora Rei Samartin. Pela minha parte, eu hoje quero colocar o foco sobre o contentor desses instrumentos, construido exclusivamente para a sua custódia e conservação.

O armário dos instrumentos do I.E.S. Fernando Blanco de Cee é um móvel de três corpos, cada um deles com portas envidraçadas de duas folhas. Segundo nos contou Dario Areas Domínguez, secretário da Fundación Fernando Blanco e coordenador do Museu, o armário foi feito no curso escolar 1908-1909 no ateliê do Colégio-Instituto, baixo a direção de Felipe Vaamonde Romero, professor titular da entidade.

O corpo central tem na parte mais alta um trabalho de marquetaria formado por três instrumentos musicais que parecem ser uma lira, uma mandolina e um clarinete, adornados com motivos florais. Mas o que me chamou a atenção foi a partitura que servia de base ao conjunto. Gravado na madeira aparece uma composição em 6/8, que permite adivinhar uma singela, mas bonita moinheira.

Uma vez na casa, e graças às magníficas fotografias que tirou Isabel Rei, pude reconstruir o motivo musical esboçado naquele pedaço de madeira de carvalho. Ao meu entender, o que se nos amostra na gravura é a segunda voz duma moinheira perfeitamente crível dentro dum contexto tradicional de música para gaita. O que eu fez foi acrescentar-lhe uma terceira inferior, voz que corresponderia à gaita 1ª, assim como umas notas para concluir a cadência final, inexistente no original. É, como disse, uma composição fácil, que pode ser perfeitamente tocável, por exemplo, pelo alunado ceense mesmo com um nível elementar como instrumentista.

A questão final seria saber se a pequena peça é tradicional, fruto da inspiração do Felipe Vaamonde ou se foi composta pelo professor de música do centro, o organista, diretor de banda e rondalhista D. Jesús García Jiménez.

P.S. O nosso agredecimento a Dario Areas, responsável do museu, pela sua hospitalidade e a informação subministrada. Também a Javier, lamento não saber o apelido, zelador do I.E.S. Fernando Blanco amabilíssimo com nós.

Em preto as notas originais.
Em vermelho as notas engadidas.
Em verde o duo por terceiras inferiores engadido.

Na direita da fotografia o armário na sua ubicación original.
1917 ©Fundació Fernando Blanco

 © Isabel Rei Samartim

 © Isabel Rei Samartim

domingo, 7 de agosto de 2016

nº 203 Os galegos em Havaí.


A gente sabe do meu namoro pela Ilha da Madeira e os seus instrumentos mais representativos: o rajão e o braguinha ou machete. Pois bem, segundo a lenda foram madeirenses os que levaram estes cordofones a Havaí, cerca do 1880, recebendo na ilha Polinésia o nome de ukelele. Em cada concerto que dou, a gente diz que gosta muito do som do meu ukelele e eu tenho que aclarar cada vez que se trata dum instrumento lusófono chamado rajão. 
Estes dias encontrei uns artigos que me fez sentir um bocado triste e ao mesmo tempo, achei um bom argumento para um romance de aventuras.
Em 18 março do 1899 aparece este surpreendente anúncio no El Correo Gallego:

«Dícese que en breve plazo tocará en Vigo un vapor extranjero para conducir, gratuitamente labradores y agricultores menores de 45 años a las islas Hawai o Sandwich, en Oceanía.»

Depois de ler isto soube que nos primeiros anos do século XX houve um importante fluxo de emigrantes peninsulares, principalmente portugueses, galegos e andaluzes às ilhas polinésias, como recambio dos emigrantes japoneses e chineses. Os primeiros moços de nacionalidade espanhola em chegar a Havaí foram os galegos embarcados no vapor Victoria que saíram do peirao de Vigo em 1899. Chegaram arredor duns 300.

Pois o caso é que nesse verão do 1899, como indica o anúncio de El Correo Gallego, o vapor Victoria terá uma viagem verdadeiramente acidentada. Paga a pena ler os artigos publicados em El diario de Pontevedra dos dias 19 e 20 de setembro desse mesmo ano. O texto periodístico é um bocado desordenado e está algo censurado como o próprio autor reconhece, mas não tem desperdício.

I
Los escándalos de la emigración.

No hace mucho tiempo que, despues de aquella campaña que hemos sotenido contra la escandalosa trata de blancos que se hacía con los emigrantes gallegos, á quienes se llevaba embaucados á las islas Hawaii, hemos publicado una relación hecha en nuestra redacción por uno de aquellos infelices , narrando los vergonzosos acontecimientos que pasaron á bordo del vapor inglés Vitoria en su viaje desde Vigo y su estancia en la isla de la Madeira, desde la cual tuvieron que regresar a España muchos de aquellos desgraciados emigrantes, pidiendo limosna y pasando todo género de privaciones y amarguras.
Hoy tenemos á la vista una carta donde se dan algunos detalles de aquellos escadalosos hechos cometidos por la empresa de la emigración á Hawaii con nuestros pobres compatriotas.
El Vitoria, como ya saben nuestros lectores, había salido de Vigo en el mes de junio último, conduciendo muchos infelices emigrantes, engañados por las mentidas ofertas de esos enganchadores sin conciencia. Lo que pasó á pocos días de salir de aquel puerto, á causa de faltar los alimentos á bordo, lo saben también nuestros lectores, porque lo hemos expuesto en aquella narración de un testigo presencial.
He aquí ahora lo que dice la carta que tenemos á la vista escrita por dos de aquellos emigrantes á Hawaii, desde Lisboa.
“Queridos hermanos: mucho nos alegramos de vuestra salud. La nuestra buena gracias á Dios.
Os remito copia de la protesta que hemos presentado al Gobernador de la isla de Madeira, la cual dice así: al excelentísimo Sr. Cónsul de España y al excelentísimo Sr. Gobernador civil de la isla de la Madeira. En el mar, á bordo del vapor inglés Vitoria, á 29 de Junio de 1899.
=Los 440 emigrantes que con dirección Sandwich hemos partido el 26 del presente mes, invocando el derecho de gentes, los nobles sentimientos de un pueblo culto y hospitalario, y la recta justicia del excelentísimo Gobierno de esta isla, protestamos con toda la fuerza que la ley en este caso nos concede, contra la prosecución del viaje, por las siguientes razones: Por incapacidad del vapor para llevar 1408 emigrantes como pretende, no habiendo comodidad para los 448 que ya venimos; por la falta en absoluto de condiciones higiénicas, no tan solo para una travesía de 80 á 90 días, sino que ni para los cinco días que traemos desde vigo, en cuyo tiempo hubo cuatro casos de asfixia; por la ineptitud del médico por todos conceptos, pues sobre no tener diploma, ni habla ni entiende el idioma de los emigrantes, por ser inglés; por hambre, por sed y por el desorden que reina á bordo desde la salida de Vigo. Todas estas razones y otras muchas que con oportunidad expondremos, y que las autoridades de Coruña y Vigo no han sabido o no han querido prever, exponemos á la consideración del Excmo, Sr. Cónsul de España y del excelentísimo Gobierno de esta isla. Dios, etc. Por todos los emigrantes: Ramón Fernández Tuñón, Genaro Ortiz de Haro, José Moiños, José Quintela.!
Presentada á las autoridades de Madeira esta protesta, dio por resultado que para averiguar si eran ciertas las razones que en ella exponiamos, el Gobernador ordenó una inspección á bordo, comuesta de once individuos, entre Cónsul, Médicos, Alcalde, Capitán de Puerto, Gobernador, Secretario e Ingeniero Naval, los cuales  después de una inspección de tres días consecutivos, y con el Código en la mano, acabaron por aprobar la protesta con todas sus razones, y después de haber desembarcado 200 y tantos, como las autoridades tuvieron conocimiento de que entre nueve individuos pagados por el contratista inglés habían querido asesinarme, salvándome por milagro, fue cuando un piquete de 50 soldados y comandante y oficiales, fueron á bordo para desarmar a los que quedaban, recogiéndoles ciento diez cuchillos y diez revólvers.
En el momento de querer asesinarme, (como son dos los que firman la carta que copiamos suponemos que se refiere al primer firmante de la misma), mi situación fue muy crítica. Derribado en el suelo y á traición, ocho de los asesinos tenían las puntas de sus dagas prontas á sepultarlas en mi, y el otro me sujetó la cara y con una navaja barbera me iba á degollar. En este crítico momento fué cuanto entre unos compañeros me salvaron precipitándose sobre los asesinos y sacándome de entre sus arras en medio del tumulto me subieron por la escala de escotilla, pudiendo así llegar á la escalera de estribor hasta el peldaño que tocaba con el agua en demanda de un bote para salvarme de los que aún me perseguían.
Estuve próximo á tirarme al agua porque el bote de los carabineros no queían atracar hasta que el Inspector les ordenó que me recogieran.
Te remito algunos diarios de Madeira y en cambio quiero me facilites El Diario que relató ahí lo acontecido.”
Aquí suprimimos algunos párrafos de la carta, que atacan duramente al Gobierno y á las autoridades de Vigo y la Coruña, por permitir tan escandalosa emigración. Y como es tan extensa, dicha carta, mañana continuaremos, pues insinúa una grave sospecha, que debe ser conocida, aunque no sabemos todo lo que de cierto tenga.
Entre tanto, pueden hacer nuestros lectores los comentarios que gusten. Nosotros hemos dicho ya bastante contra tal infame trata de esa vergonzosa emigración.

II
Los escándalos de la emigración.

Prometíamos ayer continuar publicando otros párrafos de la carta que desde Lisboa dirigen á dicha  ciudad dos de los emigrantes que tomaron pasaje para Hawaii en el vapor Victoria el 26 de junio último.
No son menos interesantes los detalles que hoy daremos á conocer á nuestros lectores, si bien tenemos que suprimir algunos párrafos en que vierten conceptos que consideramos, aunque justos, un tanto duros para algunas personas más o menos interesadas en la escandalosa trata de blancos que se verifica á ciencia y paciencia de las autoridades, en algunos puertos de Galicia.
Sigamos la narración.
“No sé si tienes conocimiento –continúa uno de los firmantes de dicha carta– de que se champurrear algo el inglés. Pues bien: debido á esto, durante los cinco días de viaje á Madeira serví de intérprete al médico y por él supe muchas cosas que me indujeron al escribir y presentar la protesta; y por un oficial de á bordo supe otras muchas más.
Me dijo éste que nosotros no íbamos a Hawaii ni á Honolulú, sinó á las islas filipinas para pelear contra los tagalos por cuenta del Gobierno norteamericano por mediación de un sidicato, y que para no despertar sospechas ni recelos haciamos el viaje por el Cabo de Hornos, en vez de hacerlo por el Canal de suez. Como yo conozco todos aquellos caminos, con más razón he creido lo que el oficial me dijo.
Otro empleado del vapor, el despensero, me dijo que nosotros y todos los europeos que fueran como emigrantes, no íbamos á trabajar la tierra, sino á trabajar en unas minas de petróleo y asfalto que estaban cerca del volcán Mounarroa, y que los chinos y los japoneses que antes trabajaban en una mina de Nafta tomaron tanto miedo, porque muchos de ellos quedaban sepultados  dentro, unos por asfisia, otros por el susto que les producía el volcán en erupción, que ahora ni japoneses ni chinos quieren trabajar allí, y los que no mueren dentro de la mina mueren fuera, a garrotazos y balazos, dándose el año pasado el caso de que 75 trabajadores, entre portugueses, chinos y japoneses, que escaparan de los trabajos, fueran perseguidos por una compañía de soldados, á tiros, y no pudiendo salvarse de arrojaron á un río de lava en donde perecieron quemados los que no cayeron a balazos.
Esta es la triste suerte que nos esperaba á todos, si yo después de escuchar tamaño relato y visto ya el trato que nos daba á bordo, no procediese como procedí.
El vapor salió de Madeira el 9 de julio, y el 8 por la noche tomando cerveza con el médico y dos oficiales, en el momento de despedirnos me dijeron que no verían mas tierra hasta las Carolinas; pues llevaban agua y carbón para tres meses.
(Volvemos a suprimir algunos párrafos que no consideramos, por los ataques que contienen, oportuno publicar).
Si de esta carta quiere hacer uso el Sr. Director de El Diario de Pontevedra, puede hacerlo, pues todo lo narrado es la pura verdad, y por lo mismo, para salvar de una infame esclavitud á mis compatriotas, el señor Director de dicho periódico hará un inmenso beneficio á todos los que piensen emigrar, dándoles á conocer estos sucesos.
Como siempre, acepta el sincero cariño de tus hermanos. –Ramón y Pura.
Hasta aquí la carta, que conservamos en nuestro poder. ¿Comentario? Ninguno. ¿Para qué? ¿No hemos hablado ya lo suficiente para que se nos atendiese por quien debía hacerlo? ¿No hemos pedido reiteradamente que se exigiesen garantías á esos embaucadoras de la emigración á Hawaii, para el cumplimiento de sus ofertas?

Nos basta pues, hacer públicos los hechos que narrados quedan, convencidos de que el mejor medio de combatir esa vergonzosa emigración, es el de desengañar á nuestros infelices labradores, haciéndoles ver todo lo que se oculta tras esas mentidas ofertas de sueños dorados conque quieren atraerlos gentes sin alma y sin conciencia que comercian con carne humana.

Na revista dominical do Faro de Vigo, Estela, publicou-se em 11 de março de 2007 uma reportagem sobre os galegos em Havaí. No mesmo lemos «Sánchez Fernández calcula que la cifra de españoles que llegaron en aquellos vapores de pasaje al paradisíaco archipiélago del Pacífico fue de unos ocho mil y que muchos de ellos eran gallegos, a pesar de que, según cuenta, “parece ser que el capitán de la nave –se refiere a la “S. S. Victoria”– no sabía que Vigo era un puerto español porque, como le parecía que todos los pasajeros hablaban la misma lengua, anotó que su barco llevaba a 343 portugueses”.»

Quando leio coisas como estas sempre penso que se fossemos um país normalizado, já se teria feito um filme. Ou não?